INSTITUTO MÁRCIO PETER - CONEXÃO LACANIANA
CURSO ONLINE 2010/1 - "PSICOSE"
Vídeoconferência com DURVAL MAZZEI NOGUEIRA FILHO
Os fenômenos elementares e a classificação das psicoses
Durval Mazzei Nogueira Filho é psicanalista e psiquiatra, graduado em Medicina e mestre em psiquiatria pela Comissão de Pós-Graduação do IAMSPE-HFMO, professor-titular do Departamento de Formação em Psicanálise (Instituto Sedes Sapientiae), coordenador do Núcleo de Pesquisa em Toxicomania do Instituto de Pesquisas em Psicanálise de São Paulo (associado à Escola Brasileira de Psicanálise), médico-colaborador do Grupo de Estudos em Álcool e Drogas (GREA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina/USP, professor e supervisor do “Centro de Estudos em Psicanálise”; autor de "Psicanálise e Medicina", ed. Escuta, 2008, SP; co-autor de "Conceito de Psiquiatria", Editora Ática, 1985, SP; "Sexo ou Sexualidade - A visão da Psicanálise", LP&M Editores, 1987, Porto Alegre; "Toxicomanias", 1999, Editora Escuta, SP.
Conexão Lacaniana: Boa noite a todos, dr. Durval, é um prazer recebê-lo em nossa segunda vídeoconferência do curso on-line “Psicose”. Em nome do dr. Márcio Peter e da equipe da Conexão Lacaniana, eu agradeço a sua presença, e gostaria de agradecer também pelo tema com que vai nos presentear nessa videoconferência.
O dr. Durval Mazzei Nogueira Filho é psicanalista e psiquiatra, trabalha há muitos anos nessa questão da psicose, das toxicomanias especialmente, um trabalho brilhante pela editora Escuta, e hoje vai nos falar sobre “Os fenômenos elementares e a classificação das psicoses”. Eu só gostaria de pedir a todos que possam aguardar até que o nosso convidado tenha terminado a sua explanação, que vai durar por volta de uma hora, e depois nós abriremos para as perguntas. Então mais uma vez, bem-vindo e eu passo a palavra ao dr. Durval.
Durval Mazzei: Muito obrigado. Bom, primeiro eu agradeço literalmente a presença do suporte técnico da Conexão Lacaniana aqui na minha casa.
Eu sei que o professor Marcelo Veras falou de um assunto mais ou menos particular, um tema de estudo dele na outra conferência. Eu aqui vou ser um pouquinho mais formal, não sei se para o bem ou para o mal, no sentido de seguir os módulos que vocês vêm estudando no curso on-line “Psicose”.
Basicamente a inspiração da minha fala é esse módulo II do curso on-line “Psicose” que se chama “Os fenômenos elementares e a classificação da psicose”, mas obviamente para falar a respeito disso eu preciso tocar em temas do primeiro e em temas do terceiro módulo. Espero que possa ser útil.
Só uma recomendação, eu vi que foi falado que eu falaria primeiro e depois vocês perguntariam. Eu vou preferir fazer de outra maneira. Como eu estou distante de vocês, aproveitando a palavra da conferência do professor Marcelo, eu não tenho aqui presente a alteridade. Vocês aí olhando, fazendo cara feia ou simpática, ou seja lá como for, se porventura alguém quiser me interromper, a moderação me avisa, tá bom?
A primeira coisa que eu digo para vocês é a história do reconhecimento da psicose. Eu dei uma aula nessa semana e pedi aos alunos, que fazem uma espécie de aprimoramento em psicologia, para me darem alguns exemplos de psicose e surgiram alguns exemplos muito interessantes.
Interessantes porque são muito diferentes entre si. Um deles, uma das moças disse de um paciente que ela atende em análise, que se dizia um revolucionário, e faz a demonstração do quanto ele é revolucionário, cantando uma música que eu não vou me lembrar agora, mas cuja temática estaria muito mais próxima de um Chitãozinho e Xororó do que de um Chico Buarque, ou um Victor Jara chileno ou à Mercedes Sosa argentina. Havia aí um escorregão absoluto entre “eu sou revolucionário” e cantar “é o amor”. E ele certamente não falava de uma função revolucionária do amor.
Outro paciente que também foi citado é um senhor que diz que “Os Flinstones”, “Os Jetsons”, a turma do “Manda-chuva”, são criações dele, que aquela dupla, Hanna & Barbera havia roubado. Quer dizer, uma construção onde efetivamente, o que ele colocava em cena era de uma autoria que certamente não cabia a ele.
E aí eu cito um paciente meu, que ficou longo tempo em análise comigo, não posso dizer que a análise dele tivesse tido a oportunidade de deslocar o sintoma dele. Creio que ele trabalhou um pouquinho melhor com esse sintoma enquanto esteve em análise comigo. Uma coisa interessante nesse caso é que ele funcionava em torno de um nome-próprio. O apaixonamento ainda adulto jovem, por uma moça cujo nome é o nome de uma loja, a moça podia se chamar “Extra” fazendo uma brincadeira. E, efetivamente, qualquer coisa onde surgisse a palavra “Extra”, era uma demonstração muito clara que o apaixonamento dela por ele era recíproco.
Eu vi que tem um item aqui que trata da erotomania, do módulo IV do curso on-line que vocês estão fazendo, era um quadro claramente erotomaníaco nesse sentido, pois partia do princípio de que essa mulher não teria acesso a ele, porque estaria presa e torturada por alguém. Então, não somente o nome “Extra” confirmava essa paixão dela por ele, como qualquer ruído ou som que pudesse lembrar choro, lamento, ou qualquer coisa do tipo, significava que a moça estava presa, impossível de procurá-lo, de acessá-lo, enfim, e que era então, havia toda uma circunstância em torno, que impedia que essa moça se aproximasse dele.
São três situações aqui, uma delas, um absoluto fora-de-sentido: “eu sou revolucionário” e cantar uma música que a rigor não teria nada a ver com essa enunciação, com essa proposição. O segundo caso, um sujeito que vive, efetivamente, vou chamar assim, um delírio de autoria, onde todas as produções dele, especialmente essa grande produção de desenhos animados, que acho que todos vocês conhecem, e ele tem uma absoluta certeza, e há uma absoluta impossibilidade de afirmar o contrário para ele, que é um elemento – a certeza – que vai definir o quadro psicótico.
Eu lembro a vocês que não se trata efetivamente de considerar “psicose” qualquer coisa absurda que alguém diga. A gente pode dizer um monte de coisas absurdas, fazer uma série de afirmações a nosso próprio respeito, mas se isso não se estabelece na relação com a linguagem, na relação com o Outro, como se fosse uma certeza, como se fosse algo que não se desloca para nenhum outro significado, isso obviamente não entra no campo da psicose.
Num artigo meu recentemente publicado no boletim lá do Sedes Sapientiae [Boletim Formação em Psicanálise – Encontro com o texto de Lacan – Ano XVII, vol. XVII, nº 1] eu uso como exemplo, a banda de rock francesa chamada Magma, que alguns de seus discos são cantados numa linguagem que eles próprios inventaram, que é a linguagem de um povo que vai vir salvar o planeta terra da catástrofe ecológica que se aproxima segundo eles mesmos. Isso não é efetivamente um delírio, o sujeito, Christian Vander, que é o líder dessa banda, ele se serve disso, ao invés de ser servido por essa afirmação.
E o sujeito que foi meu analisante, a palavra “Extra”, e eu uso uma frase do próprio Lacan, cai que nem um chumbo na sua malha significante. Não há absolutamente nenhum pensamento dele, nenhuma formulação, nenhum enunciado que ele efetivamente não esteja movido ou determinado por esse chumbo que caiu na sua malha significante.
Postos esses exemplos, e se alguém quiser fazer algum comentário, sinta-se à vontade.
Eu lembro para vocês que o Lacan, se eu posso dizer assim — ao contrário de Freud que topou direto com a questão da histeria, com a questão do sintoma como símbolo de um texto recalcado — Lacan entrou na psicanálise pela porta da psicose.
Constatamos isso, na tese de Lacan, onde ainda está presente uma formulação que para quem é de origem médica ou psiquiátrica, como é o meu caso, é uma formulação que lamentamos que ela não tenha tido toda a eficiência que poderia ter no campo psiquiátrico.
Mas creio que ao ler a tese de Lacan, em torno do “caso Aimée”, fica bem claro que Lacan ainda tem aquela esperança de que a tal incompreensibilidade do delírio —isso é uma das conceituações mais importantes da psiquiatria — que foi feita pelo Jaspers. Jaspers fazia uma diferença muito clara entre um processo, uma reação e um desenvolvimento, e dizia claramente que a psicose era um processo, era uma novidade que se instalava no pensamento do sujeito, era efetivamente um corte em tudo aquilo que o sujeito pensava, em tudo aquilo que ele vivia até então.
E que esse processo teria a princípio origem orgânica, se trata de uma organogênese, tema de um dos itens que vocês estudam aí no módulo I do curso “Psicose”. E Lacan teria então, na tese, uma esperança bastante grande, ele ainda um jovem psiquiatra, dividindo os plantões com um psiquiatra francês muito conhecido, o Henry Ey, adepto da organogênese e que um Lacan provocador teria escrito no quarto dos médicos que a psicose se resolve toda no campo do sentido.
Essa é a esperança do Lacan, que essa incompreensibilidade, que esse sem-sentido que acompanha o surgimento de uma inspiração, de uma visão, de uma certeza, de uma lembrança delirante, que estes fenômenos a partir do ensino freudiano, que se faria as conexões entre o aparentemente incompreensível e o resto da vida dessa pessoa e acabasse produzindo um sentido que teria efetivamente como resultado principal o desfazer dessa estrutura delirante.
Como eu disse, eu creio que Lacan não sustentou isso no resto da vida dele, mas, além dessa discussão com um Jaspers, que na tese fica obscurecido (Lacan não o cita), Lacan faz uma espécie de reverência a dois psiquiatras, um alemão, o Emil Kraepelin e um francês que foi professor de Lacan, o Gaëtan de Clérambault. E, de uma maneira muito curiosa, são dois dos organicistas mais declarados na história da psiquiatria, tanto o francês Clérambault quanto o alemão Kraepelin.
É exatamente desses dois autores que Lacan retira o termo, “fenômeno elementar”. Para ser preciso esse termo está claramente expresso na obra do Clérambault e na obra do Kraepelin, está como “transtorno elementar”.
Kraepelin considerava um “transtorno elementar”, experiências visionárias, do tipo “o sentimento de influência”. E eu computo que esse sentimento talvez seja um dos sentimentos que faz mais sofrer o psicótico, que é ele ter uma espécie de certeza subjetiva que o influenciam, que controlam seu pensamento, que determinam os seus atos ou querem fazer isso, mas o Kraepelin também inclui visões, inclui inspirações.
Eu me lembro de um caso que eu recebi ainda muito jovenzinho, de um sujeito que era de ascendência chinesa, que um belo dia acendeu um fósforo, e que pela luminosidade especial do fósforo ele passou a ter a inspiração, a absoluta certeza de que ele era o último herdeiro da dinastia Ming. É só pra dar um exemplo disso.
O Kraepelin também inclui as ilusões de memória, aquela história de que, por exemplo, a partir de uma inspiração como essa, o sujeito é capaz então, de se recordar que quando ele tinha cinco anos de idade, que quando ele tinha oito anos de idade, depois quando ele tinha doze, treze, quatorze, quinze anos de idade, ele se recorda de certas frases que teriam sido ditas a ele, e ele entende que essas frases são de outras pessoas que sabiam desse segredo dele.
O Clérambault cita especialmente os fenômenos verbais como fenômenos elementares, entre eles os neologismos. Cita novas conexões de significado, como no primeiro exemplo que eu dei onde não dá pra saber ou pra perceber qual é o nexo entre ser revolucionário e cantar “é o amor”. E Clérambault também cita como fenômeno elementar o sujeito que afirmaria que ele não tem mais o domínio do seu próprio pensamento, como se seu pensamento funcionasse automaticamente, quer dizer, que ele pensasse sem ter controle nenhum do que pensa.
Cita também os fenômenos de interrupção do pensamento, de um sujeito que pode até entusiasmadamente falar sobre algum tema e de repente ele interrompe aquilo, sem que seja um ponto, uma interrogação, uma exclamação, uma vírgula. Então, não é nenhum desses elementos digamos assim, sintáticos, que favorecem que a organização da fala e da escrita. Por exemplo, acabei de fazer uma vírgula, aqui falando... Mas, no fenômeno elementar o sujeito é interrompido no meio de uma palavra ou no meio de uma frase.
Então, esses seriam os “fenômenos elementares” em Clérambault, “transtorno elementar” em Kraeplin, que foram duas influências de Lacan. Lacan fala disso num texto, que se não me engano está nos Escritos, que é o De nossos antecedentes. Lacan considera Clérambault um discípulo do Kraepelin. E esses autores mais Lacan, num primeiro momento, consideram que os fenômenos elementares seriam uma espécie de estágio anterior à psicose propriamente dita.
Em um artigo muito interessante escrito por um rapaz do Rio de Janeiro, André Schaustz, este cita uma frase do Clérambault, que é uma passagem que Lacan a cita na tese, que os fenômenos elementares quando acontecem pela primeira vez produzem estranheza. Imaginem que, de repente, eu estou andando na rua e considero que o sujeito que está do outro lado da banda de rodagem, roubou um pensamento meu. Quer dizer, eu tenho uma espécie de inspiração, de convicção que o sujeito que passou do outro lado da rua, roubou um pensamento meu.
Ou como diz o Lacan no Seminário III, a pessoa que tem certeza que o amante da vizinha chamou-a de porca isso num primeiro momento seria gerador de estranheza, mas o próprio Clérambault admite que isso ainda seria a continuidade ou permitiria a continuidade de um pensamento normal. O sujeito nesse momento ainda não necessariamente sucumbiu à psicose.
É como se fosse uma tempestade passageira, um fenômeno passageiro que faz com que o sujeito a princípio continue levando a vida dele regularmente. Em um artigo de Lacan —Formulações acerca a causalidade psíquica— ele deixa muito claro que a conversa com o psicótico é marcada pelo relato desses fenômenos.
Lendo textualmente Lacan é uma citação na página 168 da edição nacional dos Escritos que conversar com o psicótico é ouvir “alusões verbais, relações cabalísticas, jogos de homonímias e trocadilhos e, direi eu, o toque de singularidade cuja recorrência é preciso sabermos ouvir numa palavra para detectar o delírio, a transfiguração do termo na intenção inefável, a fixação da ideia no semantema, os híbridos do vocabulário, o câncer verbal do neologismo, o enviscamento da sintaxe a duplicidade da enunciação e também a coerência que equivale a uma lógica”.
Nessa citação do Lacan as alusões verbais, as relações cabalísticas os jogos de homonímia (quer dizer de semelhança de palavra com palavra), os trocadilhos, os híbridos do vocabulário, os neologismos o enviscamento da sintaxe é uma espécie de desaparecimento dessa sintaxe que implica em sujeito, verbo e predicado.
Mas ele não recusa, parafraseando Shakespeare, que há método nessa loucura, que há uma lógica na maneira como esse sujeito fala.
Inegavelmente, Lacan fala dos mesmos fenômenos elementares que estavam presentes na escrita e na fala de dois grandes psiquiatras na história na psiquiatria, Kraepelin e Clérambault. Lacan, nesse momento, não depôs não desfez de maneira radical essa influência.
Mas logo, logo Lacan efetivamente abandona esse tal estagiamento da psicose que implicaria em se pensar a psicose em dois momentos. Um no qual haveria o fenômeno elementar e outro em que estaria instalada a psicose propriamente dita. Isto está claro tanto na questão preliminar quanto no Seminário III quando Lacan rompe com esse estagiamento da psicose.
Imagino que vocês já devem ter lido esse texto (A questão preliminar). Na pág. 584 da edição nacional ele usa o termo “desencadeamento” da psicose. É um momento que pode ser representado claramente por um singular fenômeno elementar que Lacan, para representá-lo, usa a metáfora de um raio que surge num céu limpo, um céu de brigadeiro. Diz Lacan, para que se desencadeie a psicose é preciso de que o nome-do-pai foracluído seja chamado e não responda.
Veja bem nesse primeiro momento eu tenho que partir do princípio de que todos sabem o que é foraclusão ou forclusão que aquela história do fracasso da bejahung do nome-do-pai, da não inclusão do nome-do-pai na cadeia simbólica. Para que se desencadeie a psicose é preciso que o nome-do-pai foracluído, de um significante que já haveria sido foracluído, isto é jamais advindo no lugar do Outro, seja ali invocado em posição simbólica ao sujeito. É a falta do Nome-do-Pai, nesse lugar que, pelo furo que abre no significado, dá início à cascata de remanejamentos do significante de onde provém o desastre crescente do imaginário, até que seja alcançado o nível em que o significante e o significado se estabilizam na metáfora delirante.
Metáfora delirante é o chumbo na malha significante. É a aquela coisa difícil de ser deslocada ou de ser associada com alguma outra frase. Mas, segue Lacan, como pode o nome a ser chamado pelo sujeito num único lugar de onde poderia ter lhe advindo, mas onde nunca esteve?
Através de nada mais nada menos que um pai real não forçosamente em absoluto, o pai do sujeito, mas “Um-pai”. Lacan usa esse termo em maiúsculo. Lacan quer dizer que este é um momento que pode ser tão ordinário como nesse exemplo que eu disse pra vocês a pouco: alguém que caminha por uma rua e tem a impressão que o sujeito que passa do outro lado da rua roubou seu pensamento. Foi uma situação onde o ‘Um-pai’ foi chamado e não responde desde o Outro.
É definido efetivamente como um corte no estilo do sujeito. Mesmo que esse sujeito caminhasse com tropeços esse sujeito até então respondia ao laço social compartilhando o saber. O chamado ao ‘Um-pai’ sem a resposta correspondente rompe com o compartilhamento. O significante desatrelou-se no real. E a partir desse momento não se compartilha mais o saber.
Pegando exemplo do rapaz da dinastia Ming aquilo funciona como uma certeza, uma irredutibilidade. Torna-se uma espécie de saber que passa a orientar a vida do sujeito de tal forma que provavelmente não haverá nenhum outro que concordará com ele. Nem o bisavô dele.
No Seminário III, pág. 28-29, edição nacional, Lacan também diz confirmando o rompimento com o estagiamento. Lacan diz: “... o delírio não é deduzido, ele reproduz a sua própria força constituinte, é ele também, um fenômeno elementar”. Isto quer dizer que a noção de elemento não deve ser tomada de modo diferente da noção de estrutura irredutível a outra coisa que não ela mesma. Fica muito claro esse rompimento que Lacan faz com essa noção de fenômeno elementar que num momento da sua trajetória teve uma função importante.
Lacan, nesse momento, é o Lacan estrutural. É o momento de seu primeiro ensino como alguns gostam de se referir, e para ele é absolutamente fundamental que se faça uma diferença muito clara entre a psicose as outras apresentações clinicas, a estrutura neurótica e a estrutura perversa.
De novo tocando nessa história da organogênese/psicogênese. Por mais que o Lacan no próprio Seminário III afirme que não há psicogênese. Pois, Lacan fala da estrutura da linguagem não falando sobre as vicissitudes da função cerebral de alguém. Só pra confirmar isso, nesse mesmo artigo — Formulações acerca da causalidade psíquica— ele, num debate com Henry Ey, diz muito claramente que a loucura não revela as fragilidades orgânicas, ela é a virtualidade permanente de uma falha aberta em sua essência. E essa “virtualidade permanente de uma falha de sua essência” é uma forma de Lacan falar da foraclusão do nome-do-pai. É obvio então que Lacan seguindo a tradição psicanalítica, não visa essa falha como se fosse um déficit. Ele vê essa formulação da forclusão do nome-do-pai, essa virtualidade permanente de uma falha aberta na essência do ser muito mais como da ordem do acontecimento. De um acontecimento preciso que corresponde à não afirmação da significação do nome-do-pai.
Muito mais da ordem do acontecimento do que da ordem da fragilidade isso tem muito valor para Lacan, um Lacan que podemos chamar de Lacan estrutural. Alguma novidade pode ser discutida, quando se fala sobre a psicose originária que efetivamente não vem ai caso agora.
E finalmente eu queria deixar então bem claro uma coisa que pra mim é importante e também, certamente, importante para Lacan estrutural, mas não deixou de ser importante também para o Lacan borromeano, de onde se pode deduzir essa noção de foraclusão generalizada. Aliás, fazendo um comentário lateral, que esse conceito de foraclusão generalizada não venha uniformizar a clinica, acho que perderíamos com a uniformidade geral da clinica. Defendo que esses fenômenos psicóticos que Kraepelin reconhece, que Clérambault reconhece, que Jaspers reconhece, que Lacan reconhece, eu digo que ganhamos reconhecendo-os também.
Um neologismo, uma formação sintática enviscada, uma sensação de que pensam no meu lugar, uma sensação de que alguém olhou nos meus olhos e roubou meus pensamentos, esvaziou meu ser. Todas essas sensações que são terríveis e as pessoas sofrem muito com essa vivência. Que esses fenômenos que Lacan acaba chegando à conclusão que eles são fora do sentido possam continuar a desempenhar o papel de indicadores clínicos, mesmo que desapareça a esperança que reinou na tese, de que a psicose esclarecer-se-ia no campo do sentido, ficasse como que suspensa por esse momento.
São fenômenos fora de sentido apesar de inteiramente dentro do campo da fala e da linguagem, mas não são formações do inconsciente no estilo da histeria. Também não é uma formação do inconsciente, no sentido que um significante vem ao lugar de outro significante, mobilizando ou colocando uma série de outras significações do sujeito. Esses fenômenos, mesmo linguageiros, não se articulam. Por isso Lacan usa a imagem do chumbo na malha significante. São fenômenos que se apresentam no real e no mínimo, devem ser efetivamente procurados em outro lugar. Eu creio que é isso que é importante para falar a vocês sobre o fenômeno elementar.
Saliento que o fenômeno elementar, fenômeno associado à psicose, foi a porta de entrada do Lacan no campo na psicanálise. O primeiro momento é sua tese onde Lacan ainda era um explorador do imaginário, onde visa a leitura da psicose pela via psicanalítica, mas ainda dentro de uma marcação fenomenológica. Do inconsciente freudiano retira a aposta de construir um sentido a esses fenômenos elementares. Depois, Lacan segue o caminho e passa a considerar o fenômeno elementar, não o início de uma psicose, mas a manifestação inaugural de uma virtualidade permanentemente aberta, esse homem ou essa mulher marcado pela forclusão poderiam um momento ou outro diante do tal do encontro faltante com ‘Um-pai’. Eles poderiam a partir daí, colocar em operação essa maneira muito peculiar que por vezes pode ser muito criativa, de colocar-se diante do Outro e do semelhante.
Não se trata de salientar déficits ou fragilidades orgânicas nesse individuo que funciona de maneira peculiar, mas sem essa liberdade de servir-se do significante que neuróticos e perversos têm. Mas de alguém que passa a partir do desencadeamento a ser domado pelo significante.
E como se o sujeito permanecesse naquele momento inaugural de acesso à linguagem onde esta obriga à submissão e tomar a palavra no nome próprio parece estar um abismo adiante.
A classificação das psicoses trato como um quadro a parte já que não teria lá muita importância para os psicanalistas. O que eu falei há a pouco sustenta isso, para o psicanalista é mais importante uma diferenciação entre os fenômenos psicótico, neurótico e perverso. A noção de foraclusão generalizada está, atualmente, em discussão e espero que não seja pra uniformizar a clinica.
Nos textos sobre a história da psiquiatria existe um debate se a psicose é um fenômeno único ou se a psicose é um fenômeno múltiplo. Desde Kraepelin, que fundou a Psiquiatria moderna, é como se o campo psiquiátrico ficasse dividido entre o grupo das patologias crônicas e das patologias fásicas. A psicose maníaco-depressiva, atual distúrbio bipolar entre as últimas; a esquizofrenia e os delírios crônicos entre as primeiras. Haveria então uma diferenciação muito clara seguindo Kraepelin, entre a assim chamada demência precoce (o termo esquizofrenia foi cunhado por Bleuler, sob a influência de Freud e Jung alguns anos após) e as psicoses maníaco-depressivas, isso orientou e orienta os psiquiatras a pensar que não existe uma forma só de psicose. Existiria a diferença no fenômeno clinico, diferença e na a biologia. Então, mesmo na história da Psiquiatria, a Psicanálise é referida como ótima forma de pensar que contribui à doutrina da psicose única.
A coisa interessante é que citam também os estudos sobre a psicose de Melanie Klein e de Bion que não são do campo lacaniano. Mas, a partir do mecanismo da foraclusão do nome-do-pai, os lacanianos estariam entre os formuladores da ‘psicose única’. No entanto, a pedra no sapato seriam os quadros melancólicos e maníacos, a tal da psicose maníaco-depressiva que não se enquadraria neste modelo. O texto ‘Luto e Melancolia’ de Freud indicaria uma diferença fundamental entre estes estados e os estados delirantes, com ou sem desagregação. Mas há a referência de Antonio Quinet, que é um estudo da época que ele pertencia à Escola Brasileira de Psicanálise. Ele faz uma construção a partir daquela definição do Freud em luto e melancolia, que é a uma perda de um objeto cuja sombra (lembrando a frase do Freud) cairia sobre o eu, de tal forma que esse eu estaria a partir de então identificado ao objeto que perdeu de tal forma que todos os ataques que os melancólicos fazem a si mesmos na verdade atacaria a sombra desse objeto que ocupou o lugar desse eu.
Esse fenômeno identificatório totalizante e fantástico quando se cristalizam nos delírios de ruína que os melancólicos constroem são tão surpreendentes quanto os delírios não melancólicos. Para que o sujeito desenvolvesse a clínica da melancolia e entrasse em mutismo, ficasse triste, arrasado, inibido e delirante se perde o amor, se perde a mãe, se perde o pai, se perde o emprego ou se perde o valor pela pátria, (esses são algumas das perdas que o Freud cita em seu artigo sobre o luto e melancolia).
A melancolia surgiria sobrepondo-se ao luto comum a partir dessa perda de objeto e da queda da sombra sobre esse eu de uma maneira brutal, como se substituindo o "eu original do sujeito". Esta ‘violência’ só viria a acontecer se o sujeito tivesse algum acidente na introdução da metáfora paterna, portanto na inclusão do nome-do-pai na cadeia significante.
Encerro aqui, dizendo que os psiquiatras adoram classificar as psicoses apesar de existir no campo psiquiátrico uma discussão sem fim, uma discussão bizantina, sobre se a psicose é ou não é um fenômeno único, se o transtorno bipolar (pra usar esse nome horroroso) e esquizofrenia são a mesma coisa, com manifestações clínicas diferentes. Essa “mesma coisa” significaria transmissão genética similar, lesão cerebral similar, falando como psiquiatra. Mas que nós psicanalistas, então, talvez estejamos autorizados a pensar o fenômeno psicótico como se fosse um fenômeno só com inúmeras manifestações clínicas. Certamente, uma discussão aberta.
Muito obrigado, acho que completei 1 hora, acho que foi bom. Quem quiser fazer pergunta, por favor, levante a mão.
Conexão Lacaniana: Obrigada ao dr. Durval pela sua explanação sobre a "Psicose" e suas classificações e suas diferenças sobre várias abordagens, de onde Lacan partiu, o caminho que ele passou. Então agora vamos partir para as perguntas. A Sandra está inserindo sua pergunta.
Pergunta (RJ): Podemos então colocar a melancolia no campo das psicoses?
Durval Mazzei: Sim, a proposição que eu coloquei aqui é essa. O reparo que faço é que não podemos de forma alguma equiparar a noção de melancolia que orientou a Freud em "Luto e Melancolia" e orientou Quinet no artigo, é a melancolia verdadeira que não se confunde, desculpe a minha sinceridade, com a bobagem que se chama hoje em dia desde o campo psiquiátrico de “depressão”. Hoje em dia se alguém chegar a um psiquiatra e disser a ele que está triste porque o pai morreu ontem, é capaz de sair da consulta tomando um antidepressivo. Se você chegar a um psiquiatra e disser "doutor, desde a semana passada não tenho mais gosto de trabalhar", é capaz de ser chamado de deprimido. A melancolia não é essa. É aquela melancolia onde o sujeito fica completamente inibido, completamente lentificado, que o contato dele com o outro é basicamente restrito a monossílabos, ao sim ao não, que fica com os movimentos lentos, e se porventura, acessarmos aos pensamentos dele, ele vai produzir coisas do tipo "Durval, você sabe a respeito dessa história da pedofilia na Igreja Católica? Pois então, eu sou o responsável. Sabe Durval, você sabe a respeito desse deslizamento em Niterói. Então, eu tenho certeza que fui eu, porque passei lá em frente uma semana antes". O sujeito faz formulações desse nível. Então quando eu digo que essa melancolia que é possível pensar relacionada à não inclusão do Nome-do-Pai. Esta não se confunde com a essa noção de depressão do mundo contemporâneo, a partir desse esclarecimento, a resposta é simplesmente "sim".
Pergunta (RJ): Obrigada pelo esclarecimento. É que alguns autores mantém neurose narcísica.
Durval Mazzei: Eu não sei se temos como discutir isso agora de maneira profunda. Tem uma frase que ouvimos muito hoje em dia, que "todos deliramos". Se eu for fazer uma confissão em público, "eu sou corintiano" e que fiz essa conferência com a camisa do Corinthians, poderíamos dizer aí está o "delírio do Durval"? Eu creio que isso deve se instalar em algum campo meu foracluído, digamos assim. Mas creio que isso é diferente de eu dizer a vocês que tenho absoluta certeza que a Dilma Rousseff roubou meu pensamento e que é certo que o programa de governo dela será baseado em minhas concepções políticas. Quer dizer, se utilizarmos o conceito de foraclusão generalizada para uniformizar uma expressão "eu sou corintiano" e esta possuir o mesmo estatuto clínico, o mesmo registro da expressão "eu serei responsável pelo próximo governo do país", eu acho que perdemos a noção clínica. É essa a minha posição agora. Mas a gente tem que discutir Joyce, tem que discutir o sujeito em Joyce, vocês vão ter um capitulo inteiro para discutir essa questão, talvez as pessoas possam se lembrar desse meu dito quando discutirem esses assuntos.
Essa sua pergunta se insere justamente no contexto da diferenciação entre neurose, psicose e perversão, pelo menos na minha clínica isso é eficiente ainda.
Pergunta (SP): Boa noite, dr. Durval, gostaria que falasse um pouco mais sobre a aparição do fenômeno elementar nas psicoses não desencadeadas. Obrigada.
Durval Mazzei: Essa expressão "psicose não desencadeada" se insere naqueles encontros como Arcachon ou Antibes, que é exatamente onde se vai discutir a psicose ordinária. As psicoses não desencadeadas receberiam esse nome de "psicose ordinária". Parece-me que esse conceito surge a partir da dificuldade, vamos dizer assim, de pacientes que não manifestam sintomas psicóticos como exemplifiquei exaustivamente durante a minha fala, que eles não surgiriam nessas pessoas. Quer dizer: não haveria roubo de pensamento, não haveria inspiração, não haveria uma formação delirante ou coisa parecida, mas os sintomas dele, as manifestações dele não se inserem propriamente dentro da estrutura do sintoma freudiano. Existe uma fala minha na Clipp que virou um artigo numa revista do Instituto Sedes Sapientiae que, o Boletim de Formação em Psicanálise, que eu discuto a psicose ordinária, o meu livro sobre Toxicomania toca em uma condição que entraria nesse campo da psicose ordinária. Mas eu creio que temos recursos melhores do que, voltando a usar essa palavra, generalizar a noção de psicose ordinária às manifestações psicopatológicas que certamente pagam o tributo ao mundo contemporâneo.
Enfim, o Márcio Peter tem um artigo chamado Sujeito e Capitalismo onde percebemos que o homem no capitalismo tardio desenvolveu um estilo de vida que favorece a forma de pensar na psicose não desencadeada, de se pensar, portanto, na psicose ordinária. Se vocês quiserem me convidar novamente para ter outra videoconferência e discutir psicose ordinária eu estou disponível.
Pergunta (Campinas-SP): Lacan diz que depressão é covardia moral. Como entender isso?
Durval Mazzei: Lacan usa essa expressão "covardia moral", mas eu creio que ele usa essa expressão não para falar da essência da depressão propriamente dita, mas pela atitude que alguns deprimidos tomam em relação a sua própria vida no sentido de acreditarem que ela não tem mais nenhum valor. Eu não sei exatamente quando Lacan utilizou esse termo pela primeira vez, em Televisão ele usa esse termo e se não me engano naquele seminário "O saber do psicanalista" ele usa também esse termo, mas creio que é uma referência direta que Lacan faz a essa espécie de glorificação do empobrecimento da vida que alguns deprimidos fazem.
Pergunta (SP): Qual a relação de autismo e psicose?
Durval Mazzei: Num primeiro momento, o autismo foi considerado quando Bleuler, sob influência do Freud, definiu a esquizofrenia pelas suas formações linguageiras, quer dizer, a tal da desagregação do pensamento, ele colocou como um ponto fundamental nisso o autismo. O autismo é definido pelo Bleuler como uma espécie da perda do contato vital com o outro. O outro aqui para Bleuler é o semelhante. Alguns psiquiatras, como Jaspers, sustentam o diagnóstico de esquizofrenia pelo tipo de produção que esse sujeito causa no entrevistador. Quer dizer, se ele for absolutamente distante, se ele não se relacionar afetivamente, esse é o fenômeno do autismo.
Alguns anos depois, eu creio que já nos anos 40 ou 50, Leo Kanner constrói esse outro conceito que é o "autismo infantil". Autismo infantil seria a falta total de contato vital com o outro, essa falta total de contato vital da realidade, definiria o quadro específico, nesse sentido o autismo pensado como Bleuler seria um dos fenômenos fundamentais do quadro psicótico. E certamente se lembrarmos de Freud, quando falava que um psicótico não faz a transferência, Freud falava de um jeito que não era uma transferência especialmente no sentido de Lacan. O psicótico não fazia transferência no sentido de não ter relação com o psicanalista. Freud certamente se refere a esses pacientes que seriam chamados de autistas, e efetivamente teve uma época que os pacientes basicamente não tinham nenhum tratamento a não ser efetivamente ficarem hospitalizados frequentemente em condições bem precárias, de tal forma que não havia nenhum estímulo para que esses sujeitos por fim falassem. Acho que esses pacientes hospitalizados que o Freud faz essa referência de autismo, é como se fosse um fenômeno fundamental.
Eu imagino se o Marcelo Veras falou de "Alteridade nas psicoses", ele certamente deve ter tocado nesse assunto na videoconferência dele.
Pergunta (SP): Há fronteira entre delírio e invenção? Poderia falar um pouco sobre o conceito de sinthome?
Durval Mazzei: Se eu for falar do sinthome agora, eu creio que você não vai agüentar. A noção do sinthome é uma noção complexa, ela vem daquela expressão "Saint-Home" acho que é do Santo Agostinho se não me engano - que o Lacan toma o sinthome, no Seminário XXIII, mais especificamente, como o quarto nó. Eu creio que a noção de sinthome tem aquela noção original de Lacan do eu como o lugar do desconhecimento, mas ao mesmo tempo a noção do eu como lugar da resistência, eu creio que a noção de sinthome é uma evolução desses conceitos originais de Lacan de uma maneira dele reler essa história toda.
Agora se há uma fronteira entre o delírio e invenção, eu gosto de pensar que não, a partir do momento em que o sujeito delira, ele não mais inventa no sentido de "eu me servi do significante". Vou ler um trecho desse meu artigo sobre a psicose ordinária onde eu cito esse baterista de uma banda de rock francês que é um rapaz chamado Christian Vander, ele diz o seguinte: "Eu, Zebëhn Straïn dë Geustaah recebi do profeta Nebëhr Gudahtt que devia cantar meus discos em kobaiano, pois devo alertar a humanidade da catástrofe próxima. Aqueles que sobreviverem ao cataclismo, à grande inundação, surgirão em um planeta inóspito, de povo hostil, que se comunica em kobaiano. A chave para o bom andamento da migração é ouvir 'Mekanik Destructïw Kommandoh' e meditar sobre o que lá nós, o Magma, cantamos. Atenção às letras de 'Kobaia is de hunden' e 'Dazeuhl wortz mekanik' que, além de ensinar a língua, dá a chave para onde caminharem quando o ecossistema terrestre desencadear o colapso".
Kobaiano é a língua que essa banda de rock inventou; 'Mekanik Destructïw Kommandoh' é uma música que está num disco do Magma e que tem esse nome. Esse sotaque alemão que coloquei aqui é pura invenção minha, ele deve falar isso em sotaque francês.
Isso é uma invenção, eu não tive oportunidade de vê-lo, mas Christian Vander esteve no Brasil e tocou em Minas Gerais, eu só soube depois, e o que dizem dele é que é um sujeito ultra-agradável, conversador, simpático, e obviamente ele não pensa que ele verdadeiramente é o Zebëhn Straïn dë Geustaah, eu creio que se alguém disser isso, delirando, ele já não mais —e eu uso uma expressão que eu usei no início de minha fala— serve-se do significante para inventar, para brincar, ele vai ser servido pelo significante, ele vai dizer que essa manifestação lhe foi imposta desde uma outra célula, então eu prefiro pensar como junto a Lacan que entre a invenção e o delírio há um corte, há uma novidade que não favorece a invenção.
Pergunta (Barreiras, BA): Dr. Durval, o desejo reprimido pode levar o sujeito a um quadro psicótico?
Durval Mazzei: Aquela coisa que falei no final, que o sintoma psicótico não repete o estilo histérico, por mais que durante a psicanálise, usando um termo bastante antigo - a gente deva histerizar o psicótico - me faria afirmar para você que um desejo reprimido no estilo que uma histérica reprime um desejo, no estilo que o fóbico reprime um desejo, que não é assim que se dá na psicose. Não que o psicótico não vá ter questões eventualmente delicadas na sua assunção sexual, a foraclusão do Nome-do-Pai, uma das consequências fundamentais é que o sujeito não se inscreve como falo no campo do outro.
Quer dizer então que aquela fórmula da fantasia, S barrado punção de a pequeno ela está inteiramente prejudicada desde a tal virtualidade aberta na essência que insisti aqui. Então não diria para você que simplesmente o desejo reprimido poderia produzir uma psicose. Digo para você as histéricas e os histéricos são plenamente capazes de fazer sintomas cuja discrição pode parecer muito com a psicose, especialmente nas histerias dissociativas, muito mais para usar também um termo bastante antigo, muito mais que as histerias conversivas. Por exemplo, aqueles fenômenos do tipo personalidade múltipla, aqueles fenômenos do tipo síndrome Ganser, onde o sujeito é capaz de errar a resposta à pergunta "Quantas patas tem um cachorro?" Ele responde 15, por exemplo. Um sentido de não realidade que parece tão gigantesco um psicótico de verdade nunca manifestaria, tenha certeza que é um desejo reprimido e que a pessoa que te deu essa resposta é uma histérica muito grave, mas não se trata propriamente de um psicótico. Muito obrigado.
Pergunta (SP): Poderia explicar melhor sobre a virtualização que se abre?
Durval Mazzei: A tal da virtualidade permanentemente aberta, é uma maneira de Lacan falar sobre a foraclusão do Nome-do-Pai, é uma maneira de Lacan falar desse furo no simbólico, que é o furo do momento do encontro com o outro, e ao chamar o Nome-do-Pai naquele lugar, só que naquele lugar você há um buraco. Então, não se responde e por esse buraco se forma aquela cascata onde se sobressaem os tais fenômenos psicóticos que descrevemos aqui. Essa é que é a virtualidade permanente aberta, nada a ver com o mundo virtual contemporâneo. Aliás, se puder fazer uma propaganda, procure um livro chamado "Novas mídias digitais", organizado por um sujeito chamado Flavio Villares, que é um economista, que tem um longo artigo meu sobre psicanálise e virtualidade contemporânea, que tem tudo a ver com esse debate do contemporâneo.
Pergunta (SP): Mannoni em "A criança retardada e sua mãe" fala sobre a idéia de máscara de debilidade para dissimular uma estrutura por vezes psicótica, perversa". Como o sr. entende esta postulação?
Durval Mazzei: Acho essa postulação absolutamente fundamental, inclusive fiz ontem uma conferência no SESC Pinheiros num simpósio sobre Sexualidade e deficiência mental [tema: “Deficiência como fruto do desenvolvimento humano precário”], quem organiza isso é um psiquiatra não psicanalista, o Francisco Assunção, e ele me convidou justamente para comentar um filme dirigido por Werner Herzog - "O enigma de Kaspar Hauser".
Não sei se vocês conhecem o filme, mas Kaspar Hauser é um sujeito que foi retirado de uma prisão, de um quartinho, onde ele ficou provavelmente desde quase que imediatamente o nascimento. Ele foi retirado de lá pelo menos um adulto jovem. Então, ele não sabe andar, não sabe falar. Se ele sente um cheiro ao invés de referir ao odor como agradável ou desagradável, ele se refere ao odor como dor no corpo. É bem uma situação de um sujeito para usar o termo aqui o termo "a criança retardada e sua mãe", quer dizer o Kaspar Hauser seria claramente chamado de um retardado para usar esse nome.
Mas o tal do "retardamento" entre quinhentas aspas dele era na verdade uma ausência total de contato com o outro, quer dizer, a Mannoni quando faz esse tipo de alerta para nós o que ela alerta na verdade é o quanto é fundamental o laço que pai, mãe, ambiente, vizinho, cachorro, avó, avô, enfim linguagem, o quanto tudo isso em torno de uma criança é absolutamente fundamental, sendo que por trás de uma atitude do Kaspar Hauser que não falava, que quando exprimia, exprimia a linguagem fazendo conexões completamente inusuais, como o cheiro que causa dor, ou então ele dizia que "queria ser um cavalheiro igual meu pai", isso queria significar que ele queria um objeto que achava interessante, e tudo isso na verdade não era absolutamente nenhum retardamento, mas era efetivamente uma ausência do laço linguageiro com o outro. Então, eu assino abaixo, literalmente, o que a Mannoni falou.
Assistam o filme, ele é muito interessante.
Pergunta (SP): Podemos pensar a máscara de debilidade como uma possibilidade de construção delirante que defende o sujeito do real? Penso em um caso particular que atendi...
Durval Mazzei: Um caso particular que você atendeu?
Pergunta (SP): Sim, grata. Creio que ficaria extenso descrever, embora já no curso tenha falado sobre ele. A peculiaridade do caso são as fabricações linguageiras dele e renuncia ao saber.
Durval Mazzei: Mas eu creio que sim, essas máscaras de visibilidade talvez defendam o sujeito dessa invasão do real que a psicose traz, eu creio que independentemente do caso que você atendeu, é uma hipótese que deve ter alguma validade, só para fazer uma brincadeira com você, as nossas hipóteses psicanalíticas funcionem em nossa subjetividade como um significante, quer dizer, que elas estejam sempre abertas a novas significações.
Pergunta (SP): Poderíamos supor uma certa tentativa em alguns sujeitos de tentar assumir essa posição de debilidade , mas por não serem psicóticos fracassam? Como um sintoma na atualidade?
Durval Mazzei: Olha, pela própria maneira como você já escreveu, eu creio que é inegavelmente um quadro psicótico mesmo, especialmente pelas fabricações linguageiras, a renúncia ao saber. Acho que não é por acaso que Lacan termina o Seminário III falando da histeria. A renúncia ao saber é o ponto de entrada da histérica, quer dizer, o S barrado como agente no discurso histérico que se dirige ao outro como S1 é a própria renúncia ao saber. Fabricações linguageiras ainda mais num garotinho que não sei que idade tem, vamos supor que seja uma criança, ou pelo menos uma criança que já devia falar direitinho, é indício de um quadro psicótico, efetivamente.
São Paulo (SP): 9 anos
Durval Mazzei: 9 anos, então certamente já não é mais para falar sem fabricações linguageiras.
São Paulo (SP): Poderíamos supor uma certa tentativa em alguns sujeitos de tentar assumir essa posição de debilidade, mas por não serem psicóticos fracassam? como um sintoma na atualidade?
Durval Mazzei: Certamente, essa história de assumir essa posição de debilidade, mas por não serem psicóticos fracassam como um sintoma na atualidade. Eu creio que sim. Inclusive me faz pensar, nem posso chamá-lo de analisante porque justamente por assumir essa função de debilidade não assume um mínimo de responsabilidade necessária ao dispositivo sustentado no sujeito suposto saber, onde ele faz parte na constituição desse suposto saber, literalmente não pode ser construído ou constituído até o presente momento por essa posição de debilidade. O cara me telefona, eu não tenho nenhuma restrição de dar meu celular aos meus analisantes, ele me telefona pelo menos uma vez ao dia e vai ao consultório fora do horário dele das sessões dele, para dizer coisas do tipo "hoje quando me levantei eu não sabia se ia para direita ou esquerda".
Uma vez eu até, provocativamente, disse para ele que ele deveria então ser cuidado por alguém, voltar para a casa da mãe e do pai, porque ele funcionava de uma maneira muito mais prejudicada do que uma Síndrome de Down. Quer dizer, eu falei para ele provocativamente, e eu creio que esse moço é a própria imagem clínica disso que se escreveu aqui. Plenamente de acordo com você. Creio que essa nossa atualidade líquida, para utilizar o termo do Bauman, eu creio que favorece isso de maneira muito clara. Obrigado pela pergunta.
Pergunta (SP): Eu gostaria de saber se para Clérambault e Jaspers se os dois pensam de maneira diferente o fenômeno elementar. Essa é a minha questão.
Durval Mazzei: A definição do Clérambault de fenômeno elementar é igual a da Kraepelin de transtorno elementar. O Jaspers não usa essa referência, eu acredito que Jaspers faz aquilo que Lacan terminou fazendo de considerar o fenômeno elementar, o transtorno elementar, não como um estágio anterior à psicose, mas que a presença, por exemplo, de uma inspiração delirante que tanto em Kraepelin quanto em Clérambault seriam transtornos elementares, no Jaspers isso já seria psicose claramente.
O ponto onde Jaspers, Clérambault e Kraepelin estariam no mesmo lugar e Lacan num lugar diferente deles seria a dedução imediata de que esse fenômeno elementar ou essa manifestação, por exemplo a inspiração delirante seja o indício muito claro de uma debilidade orgânica a ser demonstrada, e diferente de uma debilidade orgânica estruturada.
Conexão Lacaniana: Dr. Durval, estamos online desde as 18h, nós vamos encerrando essa videoconferência, gostaria de agradecer a sua generosidade intelectual, a sua clareza, enfim toda sua disponibilidade de falar de sua residência ao nosso curso. Gostaria de agradecer a presença de todos vocês.
Durval Mazzei: Eu sempre gostei muito do Márcio Peter, e se for possível, Márcio, se depois você puder mandar um simples comentário, caso você puder assim, "perder seu tempo" e ouvir a minha fala, se puder fazer um pequeno comentário, eu agradeceria muito.
Obrigado a todos, estou lendo alguns agradecimentos aqui, muito obrigado a vocês todos. Foi realmente uma experiência muito interessante, muito obrigado, boa noite.
[Muitos agradecimentos]
FICHA TÉCNICA
Instituto Marcio Peter/Conexão Lacaniana
Curso on-line Psicose
Vídeoconferência com Durval Mazzei Nogueira Filho
Realizada em 25/abril/2010, 18h
Moderação: Ana Maria Ferraz
Suporte técnico: Angelino Bozzini
Transcrição: Sofia Porto, Verônica Pinheiro e Noemia Takemoto
Formatação: Noemia Takemoto
Revisão Técnica: Maria de Fátima Galindo
Revisão final: Durval Mazzei Nogueira Filho
São Paulo - 2010